Porque as viagens não chegavam para me devolver a mim

Durante muito tempo, eu esperava pelas viagens como quem espera por ar.

E, de certa forma, eram isso mesmo.

Ar.
Beleza.
Descanso.
Inspiração.
Um intervalo na intensidade dos dias.

Viajar era um dos momentos mais esperados do ano. Na verdade, havia várias viagens ao longo do ano. Viagens em família, viagens em casal, escapadinhas, destinos bonitos, lugares que muitas pessoas desejavam conhecer.

E eram momentos bons.

Muito bons.

Havia paisagens que ficavam na memória.
Havia hotéis bonitos.
Havia comida diferente.
Havia ruas novas para descobrir.
Havia mar, cidade, cultura, beleza, descanso e novidade.

Mas, durante muito tempo, eu não percebia que estava a colocar demasiado peso nesses momentos.

Como se as viagens tivessem de me devolver tudo aquilo que eu ia perdendo no dia a dia.

A energia.
A leveza.
A vontade.
A presença.
A mim.

A necessidade de sair

Na altura, eu trabalhava muito.

Nós trabalhávamos muito.

Muitas horas.
Muita responsabilidade.
Muita pressão.
Muitos problemas para resolver.
Muita atenção constante.
Muita resiliência exigida todos os dias.

A restauração, sobretudo em contexto de negócios familiares, tem uma intensidade muito própria. Há sempre algo a acontecer. Há sempre decisões a tomar. Há sempre pessoas, ritmos, imprevistos, exigências e uma atenção que raramente desliga por completo.

E, por isso, as viagens eram quase uma necessidade.

Não eram apenas lazer.

Eram uma forma de sair.
De respirar.
De mudar de cenário.
De sentir que, por alguns dias, a vida ficava suspensa.

Durante aqueles dias, parecia que havia mais espaço.

Mais tempo.
Mais beleza.
Mais silêncio.
Mais possibilidade.

Mas era uma pausa com prazo marcado.

Tinha data de ida.

E tinha data de regresso.

O regresso mostrava-me a verdade

O problema não estava nas viagens.

As viagens eram boas.
As férias eram importantes.
As escapadinhas traziam-me momentos bonitos.

O problema estava no regresso.

Porque eu voltava.

E quando voltava, a minha vida continuava igual.

As mesmas rotinas.
Os mesmos ritmos.
A mesma exigência.
O mesmo cansaço acumulado.
A mesma sensação de estar sempre a dar resposta a tudo.

E, pouco tempo depois, aquilo que a viagem me tinha dado começava a desaparecer.

A leveza ia embora.
A mente voltava a acelerar.
O corpo voltava a pesar.
A desmotivação regressava.
A exaustão mental continuava ali.
O esgotamento emocional não desaparecia.

Percebi, com o tempo, que muitas vezes as férias serviam para recuperar algum descanso físico.

Dormir mais.
Parar um pouco.
Sair do ambiente habitual.
Desligar por uns dias.

Mas o burnout, a exaustão emocional e a sensação de desalinhamento não se resolviam apenas assim.

Porque o problema não era só estar cansada.

Era a forma como eu vivia.

Descansar não era o mesmo que nutrir-me

Quando tinha dias livres, muitas vezes só queria descansar no sentido mais básico da palavra.

Dormir.
Não fazer nada.
Ficar quieta.
Talvez fazer uma caminhada.
Ir a uma esplanada.
Tomar um café.
Estar um pouco fora do ritmo do trabalho.

E isso também era necessário.

O corpo precisava.

Mas, olhando para trás, percebo que nem sempre eram pausas que me nutriam verdadeiramente.

Eram pausas de recuperação.

Não eram ainda pausas de presença.

Eu descansava o corpo, mas nem sempre escutava o que estava por baixo do cansaço.

Não perguntava:

O que é que me está a esgotar?
O que é que eu continuo a repetir?
O que é que já não faz sentido?
Que parte de mim está a pedir mudança?
Que rotina me ajudaria a não chegar sempre ao limite?

Na verdade, eu não tinha grandes rituais de cuidado.

Tinha momentos de paragem, sim.

Mas não tinha ainda uma forma consciente de criar espaço para mim no dia a dia.

E essa foi uma das grandes diferenças que fui compreendendo.

Parar por cansaço não é o mesmo que pausar com intenção.

As férias são importantes, mas não podem carregar a vida inteira

Hoje continuo a acreditar que as viagens são importantes.

Muito importantes.

As viagens abrem-nos mundo.
Mostram-nos outras formas de viver.
Trazem cultura, beleza, descanso, inspiração e memórias.
Podem dar-nos insights profundos.
Podem aproximar pessoas.
Podem acordar partes nossas que estavam adormecidas.

Os retiros também podem ser poderosos.

Podem criar silêncio.
Podem abrir perguntas.
Podem trazer transformação.
Podem oferecer um espaço seguro para parar, sentir, chorar, respirar, reconstruir e regressar a nós.

Eu não desvalorizo nada disso.

Pelo contrário.

Mas hoje sei que uma viagem, umas férias ou um retiro não transformam a nossa vida se forem apenas um compasso de espera.

Uma pausa bonita antes de voltarmos exatamente ao mesmo lugar interno.

Se nada muda no regresso, tudo volta a pesar.

Porque a vida não acontece só nas férias.

A vida acontece no dia a dia.

Acontece na segunda-feira de manhã.
Na terça-feira à noite.
No caminho para o trabalho.
Na forma como acordamos.
Na forma como comemos.
Na forma como descansamos.
Na forma como dizemos sim.
Na forma como dizemos não.
Na forma como cuidamos de nós quando ninguém está a ver.

Os grandes momentos são importantes.

Mas os dias comuns são decisivos.

Os restantes dias do ano também importam

Durante muito tempo, eu esperava por aqueles dias especiais para respirar.

As férias.
As viagens.
As escapadinhas.
Os retiros.
Os fins de semana.
Os momentos em que finalmente havia espaço.

Mas e os outros dias?

E todos os dias em que acordava cansada?

E os dias em que trabalhava sem vontade?

E os dias em que o corpo pedia pausa e eu continuava?

E os dias em que a mente estava cheia e eu não sabia como abrandar?

Foi aí que comecei a perceber algo muito simples, mas muito profundo:

não podemos viver à espera de pequenos intervalos para nos sentirmos vivas.

Porque a nossa vida não pode depender apenas de alguns dias bonitos por ano.

O que transforma é acordar mais inteira nos dias comuns.

É criar uma vida que não precise constantemente de fuga.

É ter pequenas pausas reais dentro da rotina.

É fazer escolhas que não nos esgotem sempre da mesma forma.

É criar rituais simples que nos ajudem a voltar ao corpo, à presença e à nossa verdade.

O insight só transforma quando vira ação

Há viagens que nos mostram coisas.

Há lugares que nos abrem perguntas.

Há retiros que nos fazem tocar em verdades importantes.

Mas um insight, por si só, não muda a vida.

O insight precisa de descer à matéria.

Precisa de virar escolha.
Precisa de virar rotina.
Precisa de virar limite.
Precisa de virar gesto.
Precisa de virar ação concreta.

Podemos perceber muita coisa num lugar bonito.

Mas é no regresso que se vê o que fazemos com aquilo que percebemos.

Mudamos alguma coisa?
Criamos uma nova rotina?
Descansamos antes de colapsar?
Ouvimos mais o corpo?
Simplificamos a vida?
Passamos a escolher melhor?
Deixamos de normalizar o esgotamento?

A transformação começa muitas vezes num momento especial.

Mas sustenta-se nos dias normais.

Talvez eu não precisasse de mais viagens

Hoje percebo que talvez o que eu precisasse não fosse de mais viagens.

Era de uma viagem a mim.

De uma viagem para dentro.
Para o corpo.
Para a minha verdade.
Para os meus ritmos.
Para as minhas escolhas.
Para aquilo que eu continuava a adiar dentro de mim.

Porque podemos atravessar países, cidades, mares e montanhas e, ainda assim, continuar longe de nós.

E também podemos estar em casa, numa manhã simples, com uma chávena quente nas mãos, e sentir que finalmente chegámos a algum lugar.

Foi aqui que nasceu a ideia das pausas

Foi desta aprendizagem que nasceu uma parte muito importante da HoliZen.

A ideia de que não precisamos de esperar pelas férias, por um retiro ou por uma grande mudança para começar a viver de forma mais consciente.

Podemos começar antes.

Com uma chávena de chá.
Com uma respiração.
Com um banho tomado com presença.
Com uma caminhada sem pressa.
Com um aroma no fim do dia.
Com uma pergunta escrita num caderno.
Com uma pausa criativa.
Com cinco minutos em silêncio.

Pequenas pausas.

Não para fugir da vida.

Mas para entrar nela de outra forma.

Com mais presença.
Com mais escuta.
Com mais intenção.
Com mais verdade.

As férias podem inspirar.

Mas são as pausas do quotidiano que sustentam.

O que eu teria precisado naquela fase

Hoje, quando olho para trás, percebo que talvez eu não precisasse apenas de viajar mais.

Talvez eu precisasse de me escutar mais.

Talvez precisasse de perceber que o corpo não estava apenas cansado.

Estava a avisar-me.

Talvez precisasse de rotinas mais simples.
De limites mais claros.
De momentos de pausa antes do limite.
De criatividade.
De natureza.
De descanso sem culpa.
De presença dentro dos meus próprios dias.

Talvez precisasse de compreender que o descanso não podia ser só uma recuperação física depois de semanas ou meses de esforço.

Precisava de ser uma prática.

Uma escolha.
Um compromisso comigo.
Uma forma de não me abandonar.

A vida que escolhi criar

Hoje, a minha vida é muito diferente.

Não perfeita.

Mas mais minha.

Tenho um me time diário. Um tempo só meu, que não fica para quando der, nem para quando tudo estiver feito. É uma prioridade.

Além desse momento diário, todo o meu estilo de vida se tornou mais slow living.

Como mais devagar.
Preparo as refeições com mais calma.
Faço caminhadas.
Medito.
Crio.
Estou mais atenta ao corpo.
Respeito mais os meus ritmos.
Procuro viver os dias com mais presença e menos pressa.

E talvez a maior mudança seja esta: hoje, na maior parte dos meus dias, sinto aquela sensação que antes procurava nas viagens.

A leveza.
O bem-estar.
A felicidade simples.
A sensação de estar no lugar certo.

Não preciso esperar por uma escapadinha para respirar.

Não preciso esperar pelas férias para me sentir viva.

Não preciso esperar por um destino bonito para sentir beleza.

Hoje consigo sentir isso nos meus dias comuns, porque escolhi criar uma vida que me permite sustentar pausas conscientes, pausas criativas e pequenos rituais que me devolvem a mim.

E isso, para mim, é uma das formas mais bonitas de felicidade.

Não a felicidade perfeita.

Mas a felicidade de acordar e sentir que a minha vida já não é um lugar de onde preciso fugir.

Uma pausa que regressa connosco

Hoje continuo a amar viagens.

Continuo a acreditar na beleza de sair, conhecer, descobrir, celebrar, descansar, viver experiências novas e criar memórias.

Mas já não coloco nas viagens a responsabilidade de me devolverem a mim.

Essa parte é minha.

É minha no regresso.
É minha nos dias comuns.
É minha nas escolhas pequenas.
É minha na forma como organizo a vida.
É minha na coragem de mudar o que já não me faz bem.

Uma boa viagem pode abrir uma porta.

Mas depois sou eu que tenho de atravessá-la.

Uma pausa profunda pode mostrar-me um caminho.

Mas depois sou eu que tenho de o viver.

Um retiro pode dar-me um insight.

Mas depois sou eu que tenho de o transformar em ação.

É isso que hoje faz sentido para mim.

Não viver à espera da próxima fuga.

Mas criar uma vida onde eu consiga respirar mais vezes.

Talvez a tua pausa também precise de entrar nos teus dias

Talvez também conheças este lugar.

O de esperar pelas férias para descansar.
O de contar os dias para sair.
O de sentir que só longe da rotina consegues respirar.
O de voltar e, pouco tempo depois, sentir tudo igual outra vez.

Se sim, talvez não precises de desvalorizar as viagens.

Talvez só precises de deixar de lhes pedir que façam tudo por ti.

Talvez possas começar a trazer pequenas pausas para os teus dias.

Uma pausa de manhã antes de entrares no ritmo.
Uma pausa ao fim do dia para pousares o corpo.
Uma pausa criativa para saíres da mente.
Uma pausa de silêncio para escutares o que vive dentro.
Uma pausa simples para te perguntares: como estou, de verdade?

Porque a vida não se transforma apenas nos lugares bonitos que visitamos.

Transforma-se na forma como regressamos a nós.

Todos os dias.

E talvez, para ti, tudo comece com uma pausa que não precise de bilhete de avião.

Apenas de presença.

Ou de uma viagem mais silenciosa, mais profunda e mais verdadeira:

a viagem ao teu interior.

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